O MESTRE BRUCE LEE

Bruce LeeBruce Jun Fan Lee nasceu na hora do Dragão, entre 6 e 8 da manhã, no ano do Dragão, em 27 de Novembro de 1940 no Jackson Street Hospital em Chinatown, São Francisco (EUA). Hoje em dia, uma placa na entrada do hospital comemora o seu local de nascimento. O nascimento de Bruce, na hora e no ano do Dragão é um símbolo bastante forte na astrologia e na cultura Chinesa. Ele seria um homem de vida poderosa, que impactaria a vida de inumeráveis pessoas no mundo. Bruce foi o quarto filho de Lee Hoi Chuen e sua esposa Grace Ho. Ele tinha duas irmãs mais velhas, Phoebe e Agnes, e um irmão mais velho, Peter, assim como um irmão mais novo, Robert. Lee Hoi Chuen era um comediante da Ópera Chinesa e um ator em filmes Cantoneses. Quando Bruce nasceu, o Sr. e a Sra. Lee estavam em uma turnê pelos Estados Unidos da América, junto com a companhia de ópera. Portanto, foi bastante fortuito para o futuro de Bruce que seu nascimento tenha se dado na América, uma vez que ele retornaria 18 anos depois, clamando pelo seu direito à cidadania Norte-Americana.

Os pais de Bruce lhe deram o nome de "Jun Fan". Uma vez que é costume Chinês colocar o sobrenome primeiro, o nome completo de Bruce era Lee Jun Fan. O significado de Jun Fan merece uma explicação, também, uma vez que predizia a jornada do recém-nascido filho de Lee. Literalmente, JUN significa "despertar-se para um estado ativo" ou "tornar-se próspero". Era um nome comumente utilizado para garotos de Hong Kong naqueles tempos, principalmente porque a China e os chineses passavam por situações de muita vulnerabilidade, o que levava todos, incluindo os pais de Bruce, a desejarem que o "leão adormecido do oriente" acordasse. A sílaba FAN, por sua vez, refere-se ao nome Chinês para São Francisco, mas seu significado real é "cerca do jardim" ou "países fronteiriços à um grande país". Durante o período da Dinastia Ching (1644-1911), muitos Chineses imigraram para o Havaí e para São Francisco como trabalhadores. Como consequência, os Estados Unidos da América se tornaram um “FAN” (vide significado acima) do grande Império Ching. Portanto, o verdadeiro significado do nome de Bruce, Jun Fan, é "despertar e tornar FAN (Estados Unidos) próspero". O sentimento de muitos chineses nessa época, que sentiam-se reprimidos e inferiores devido aos poderes estrangeiros, era o de desejarem que a China melhorasse de condição, ultrapassando os países dominantes da época, de forma a retornarem à uma Era Dourada da China! Os pais de Bruce queriam que ele brilhasse e que sacudisse os países estrangeiros, o que ele definitivamente conseguiu fazer.

O nome Anglo-Saxão, Bruce, foi dado ao bebê por uma enfermeira do Jackson Street Hospital. No entanto, ele só foi usado quando Lee Jun Fan entrou na escola secundária e começou a estudar a Língua Inglesa. A história contada é que no primeiro dia da aula de Inglês os estudantes tinham que escrever seus nomes em Inglês. Como Bruce não sabia qual era seu nome em Inglês, copiou o de um colega. Sua família quase nunca havia utilizado o nome Bruce, especialmente durante a sua infância, quando seu apelido era "SAI FON", que literalmente significa "Pavãozinho". Curiosamente, esse era um apelido feminino, mas era usado em Bruce por um motivo muito sério. O primeiro filho do Sr. e da Sra. Lee foi um garoto que morreu ainda muito novo. Seus pais acreditavam que se os Deuses não consentissem com o nascimento de um bebê do sexo masculino, dariam um jeito de levá-lo dos seus progenitores. Então, o apelido "SAI FON" foi usado como uma estratégia para enganar os Deuses, fazendo-os acreditar que Bruce era uma menina. SAI FON era um termo de grande apelo afetivo para os familiares de Bruce.

Aos três meses de vida Bruce retornou à Hong Kong com seus pais, onde viveu até os seus 18 anos. Provavelmente devido à longa viagem e à mudança de clima entre os países, Bruce não foi uma criança forte nos seus primeiros anos, uma condição que mudaria quando ele iniciasse seus estudos de Gung Fu com 13 anos. (Bruce sempre pronunciava sua arte marcial chinesa como GUNG FU, que é a versão em Cantonês da mais conhecida pronúncia Kung Fu do Mandarin). A lembrança mais proeminente da infância de Bruce foi a ocupação Japonesa em Hong Kong durante os anos da II Guerra Mundial (1941-1945). A residência da família Lee era um pequeno apartamento na rodovia Nathan, número 218, em Kowloon, do outro lado do acampamento militar Japonês. A mãe de Bruce sempre contava a história do pequeno garoto, com menos de cinco anos de idade, dependurando-se na varanda de casa para balançar seu braço em direção aos soldados japoneses, em sinal de protesto. Outro apelido que a família geralmente usava com Bruce era "Mo Si Ting", que significa "nunca fica parado", e que definia seu temperamento precisamente.

A ocupação do exército Japonês em Hong Kong era a memória mais antiga que Bruce tinha, mas a cidade havia sido colônia da Coroa Britânica desde o final de 1800. No final da II Guerra Mundial os Britânicos retornaram ao poder na China. Não é difícil de compreender porque o jovem Bruce tinha tantos sentimentos negativos em relação à dominação estrangeira do seu país. Na sua adolescência, Bruce foi exposto a muitos insultos dos garotos Ingleses na escola, prática bastante comum daqueles que sentiam-se superiores aos Chineses. Não é de se surpreender que Bruce e seus colegas retaliassem os insultos e, algumas vezes, chegassem a brigar com os garotos Ingleses. Essa atmosfera de animosidade cimentou a vontade de Bruce para começar a estudar artes marciais. Aos 13 anos, Bruce foi apresentado ao Mestre Yip Man, um professor de Wing Chun. Por cinco anos Bruce estudou com afinco e se tornou muito habilidoso. Ele reverenciava Yip Man como um grande mestre e homem de grande sabedoria, e o visitava com certa frequência após ter deixado a China.

Quando começou a estudar o Gung Fu, Bruce chegou a usar suas novas habilidades para bater em seus adversários, mas não demorou muito para que ele aprendesse que o verdadeiro valor da arte marcial situava-se no desenvolvimento da autoconfiança, a tal ponto que a pessoa não sentiria necessidade de defender sua honra por meio da luta o tempo todo. No ensino médio, Bruce, que não era mais uma criança frágil, começou a afiar o seu físico por meio de um treinamento bastante intensivo. Uma das suas realizações foi vencer o campeonato de Boxe estudantil contra um estudante Inglês, no qual as regras do Marquês de Queensbury foram seguidas, ou seja, não eram permitidos chutes, apenas movimentos com as mãos. Dados seus movimentos hábeis e graciosos, que futuramente seriam mostrados em seus filmes, não é surpresa que Bruce fosse um grande dançarino, tendo ganhado o campeonato de Cha Cha Cha de Hong Kong, em 1958. Ele estudava dança tão assiduamente quanto estudava Gung Fu, mantendo um livro de anotações com mais de 108 passos de Cha Cha Cha. É fácil perceber, por meio desses exemplos, que Bruce tinha os traços de autodisciplina e perseverança que futuramente lhe colocariam em uma situação bastante confortável, mesmo que nesse momento de sua vida ele não estivesse entre os melhores alunos da sua escola.

Além dos seus estudos de Gung Fu e dança, Bruce tinha outro interesse em paralelo durante os seus anos de colégio. Ele era um ator mirim sob a tutela do seu pai, que deveria saber desde muito cedo que Bruce possuía uma veia artística bastante forte. O primeiro papel de Bruce foi como um bebê nos braços do seu pai nos palcos de ópera. Aos 18 anos de idade, ele já havia aparecido em cerca de 20 filmes. Naqueles dias, participar de filmes não era nada muito glamouroso ou rentável em Hong Kong, mas ele adorava atuar. Sua mãe sempre contava histórias de como era impossível acordar Bruce de manhã para ir à escola, mas como ele acordava com apenas um tapinha nas costas à meia noite para ir à um estúdio participar de algum filme. Os filmes eram geralmente gravados à noite em Hong Kong, de forma a minimizar os barulhos que fazia na cidade durante o dia.

Por volta dos 18 anos, Bruce procurava novos ares para sua vida, assim como seus pais, desencorajados pelo pouco progresso acadêmico do filho. Era prática comum aos alunos saídos do ensino médio estudar em Faculdades de outros países, mas isso exigia notas muito boas. Um irmão e uma irmã de Bruce foram para os Estados Unidos fazer o ensino superior. Apesar de Bruce não ter formalmente se graduado no Ensino Médio e de ser mais interessado em Gung Fu, dança e atuação, sua família decidiu que era hora do filho voltar à sua terra natal e tentar ter um futuro ali. Em Abril de 1959, com U$100,00 no bolso, Bruce embarcou em um navio para São Francisco. Sua passagem dava-lhe o direito aos decks inferiores do navio, mas não demorou muito para Bruce ser convidado às instalações da primeira classe para ensinar Cha Cha Cha aos outros passageiros. Chegando em São Francisco, Bruce sabia que os seus conhecimentos de dança poderiam lhe render um primeiro emprego como instrutor. Um dos seus primeiros alunos de dança foi Bob Lee, irmão de James Y. Lee, que se tornaria um grande amigo de Bruce, colega de artes marciais, e eventualmente parceiro e instrutor assistente na Oakland Jun Fan Gung Fu Institute. Bruce não ficou muito tempo em São Francisco, tendo viajado à Seattle onde um amigo da família, Ruby Chow, possuia um restaurante. Ele havia prometido à Bruce um quarto para ficar e um emprego no restaurante. Nesse momento da sua vida, Bruce tinha deixado suas paixões (Gung Fu e dança) de lado, e focava em sua educação. Ele se matriculou na Edison Technical School onde completou o necessário para obter o título do ensino médio, e posteriormente entrou na Universidade de Washington. Como é típico dos seus traços de personalidade, ele devotou-se à aprendizagem do Inglês coloquial, do dia a dia, como se estivesse treinando sua arte marcial. Ele não se contentava em falar como um estrangeiro, e por isso dedicou-se a aprender as idiossincrasias da fala norte-americana. Sua biblioteca continha uma quantidade de livros, todos grifados em frases com expressões idiomáticas típicas dos Estados Unidos da América. Apesar de nunca ter perdido, de fato, traços do Inglês britânico em sua fala, sua habilidade de expressar-se em Inglês Americano era incrível para quem não sabia uma palavra sequer até os 12 anos de idade. A habilidade de escrita era ainda superior a sua habilidade de fala, primeiramente porque ele havia recebido uma educação de qualidade em Hong Kong. Quando sua futura esposa o conheceu na Universidade de Washington, ele revisava e corrigia com facilidade a gramática e sintaxe dos trabalhos que ela fazia.

Na universidade, Bruce graduou-se em Filosofia. Sua paixão por Gung Fu o inspirou à mergulhar nos aspectos filosóficos das artes. Muitos dos seus ensaios nesses anos diziam respeito aos princípios filosóficos de certas técnicas das artes marciais. Por exemplo, ele escrevia com frequência sobre os princípios do Yin e Yang, e como eles poderiam ser traduzidos em movimentos duros e suaves nas artes marciais. Dessa forma, ele estava completando sua educação como um verdadeiro artista marcial no sentido chinês de alguém cujo conhecimento engloba os aspectos físicos, mentais e espirituais das artes. Nos três anos que Bruce estudou na Universidade, ele se manteve ensinando Gung Fu, tendo a esta altura desistido de trabalhar no restaurante, ou de entregar jornais, assim como de em vários outros trabalhos "estranhos".

Ele e um conjunto pequeno dos seus novos amigos encontravam-se em estacionamentos, garagens ou qualquer espaço aberto para praticar algumas técnicas de Gung Fu. No final da década de 1950 e no início da década de 1960, "Gung Fu" era um termo desconhecido; de fato, a única arte marcial que poderia ser encontrada nas páginas amarelas era Judô. Mesmo o termo "Karatê" não era familiar nesse período. O pequeno grupo de amigos estava intrigado com essa nova arte marcial, chamada Gung Fu. Um dos primeiros estudantes desse grupo foi Jesse Glover, que continuou a ensinar algumas das técnicas que Bruce passava nessa época. Foi nesse período que Bruce e Taky Kimura se tornaram amigos. Não apenas Taky se tornaria um dos alunos de Gung Fu de Bruce, e posteriormente um dos primeiros instrutores assistentes, como sua amizade seria uma fonte de amor e força para ambos. Taky Kimura continuou um grande defensor de Bruce, dedicando incontáveis horas à preservação da arte e da filosofia aprendida com o seu mestre durante todos os anos posteriores à morte de Bruce.

O pequeno círculo de amigos de Bruce o encorajou a abrir uma escola de Gung Fu de verdade e a cobrar mensalidades que pudessem ajudá-lo a se manter enquanto estudava. Bruce então alugou uma pequena sala no porão de uma construção na 8th Street no Chinatown de Seattle, e deu o nome à sua escola de Jun Fan Gung Fu Institute. Em 1963, após ter conseguido um grupo de alunos dedicados, e após ter feito inúmeras demonstrações na universidade, Bruce pensou que poderia atrair mais alunos se abrisse uma escola maior na avenida University Way, 4750, onde também vivia em um quarto nos fundos da academia.

Um dos seus estudantes em 1963 era uma aluna do primeiro ano da Universidade de Washington, Linda Emery. Linda sabia quem Bruce era por suas aulas de Filosofia Chinesa na Garfield High School (Bruce era convidado à dar algumas aulas aos alunos do ensino médio). No verão após a formatura no ensino médio, Linda começa a fazer aulas de Gung Fu, incentivada pela sua amiga de origem chinesa Sue Ann Kay. Rapidamente o instrutor passou a ser mais interessantes que as próprias aulas em si. Bruce e Linda casaram-se em 1964. Nessa época, Bruce havia decidido seguir carreira como professor de Gung Fu. Seu plano era abrir um número de academias ao redor dos Estados Unidos e treinar instrutores assistentes para ensinar nelas. Deixando a academia de Seattle nas mãos de Taky Kimura, Bruce e Linda mudaram-se para Oakland, onde Bruce abriu sua segunda escola de Gung Fu com James Lee. Os dois tinham desenvolvido uma amizade ao longo dos anos, com cada um viajando frequentemente entre Seattle e Oakland. James era um experiente praticante de Gung Fu, mas quando ele viu o que o Bruce conseguia fazer ele ficou tão impressionado que quis abrir uma academia junto com ele. Assim, a segunda filial do Jun Fan Gung Fu Institute foi fundada.

Tendo estado nos Estados Unidos da América já há cinco anos, Bruce deixou para trás qualquer pensamento em seguir a carreira de ator, e dedicou-se completamente às artes marciais. Até esse período, o Gung Fu de Brucee consistia basicamente de técnicas de Wing Chun e sua fundamentação teórica que ele aprendeu diretamente do Mestre Yip Man. No entanto, gradualmente ele foi expandindo seu repertório, devido ao seu ávido interesse na filosofia das artes marciais e ao seu desejo de auto aperfeiçoamento. Um incidente em particular acelerou esse processo de auto exploração. Em 1964 Bruce foi desafiado por um praticante de Gung Fu de São Francisco, que se opunha à sua prática de ensinar a arte à alunos ocidentais. Bruce aceitou o desafio e o homem chegou à sua academia em Oakland no dia combinado do confronto. O combinado era que se Bruce fosse derrotado, ele iria parar de ensinar Gung Fu aos ocidentais. Foi uma luta curta contra o lutador de Gung Fu de São Francisco, que desistiu do combate quando Bruce o derrubou no chão após três minutos de duelo. Mesmo tendo ganhado o combate, Bruce estava sem fôlego e desanimado por ter levado a cabo a luta em três minutos. Esse incidente foi um ponto decisivo na vida de Bruce, e em sua investigação sobre as artes marciais, assim como no aprimoramento do seu condicionamento físico. Assim começou a evolução do Jeet Kune Do.

Assim que Bruce começou a cimentar seus planos de expandir suas escolas de artes marciais, o destino interveio levando sua vida para outra direção. Nos anos anteriores, Bruce se tornou conhecido de Ed Parker, amplamente conhecido como o pai do Kenpo Americano. Em Agosto de 1964, Ed convidou Bruce a dar uma demonstração em Long Beach, California, no primeiro torneio internacional de Karatê. A exibição de Bruce foi espetacular. Ele usou Taky como seu parceiro, demonstrando seu Chi-Sao vendado. Em um determinado momento ele utilizou um dos espectadores para ser parte da sua demonstração do soco de uma polegada. O carisma de Bruce era tal, que ele falava como se estivesse conversando casualmente, colocando uma dose de humor nos seus comentários, enquanto enfaticamente demonstrava seu poder, precisão e velocidade.

Um dos espectadores era Jay Sebring, um cabelereiro muito conhecido das celebridades de Hollywood. Como o destino mostraria, na semana posterior à demonstração de Long Beach, Jay estava trabalhando o cabelo de William Dozier, um produtor de sucesso. O Sr. Dozier comentou com Jay que procurava um ator para atuar como filho de Charlie Chan em um seriado intitulado "Number One Son". Jay contou ao produtor que havia visto um jovem Chinês espetacular em uma demonstração de Gung Fu, há apenas algumas noites. Dozier, então, obteve uma cópia do filme gravado no torneio de Ed Parker. Na semana seguinte ele ligou para Bruce, em sua casa em Oakland, e o convidou a fazer um teste de elenco em Los Angeles. O teste de Bruce foi marcante, mas os planos para o seriado foram por água abaixo. Dozier estava muito envolvido na produção de Batman para a TV, mas não queria perder Bruce. O plano era que caso Batman fizesse sucesso por mais um ano, ele capitalizaria com a popularidade do seriado para produzir outro também baseado em um personagem derevistas em quadrinho: O Besouro Verde. Bruce interpretaria o personagem braço direito do Besouro Verde, o Kato. Para evitar que Bruce assinasse contrato em outro programa, Dozier pagou-lhe cerca de U$1.800 dólares por um ano.

Nesse período, as coisas também estavam mudando na vida pessoal de Bruce. Seu primeiro filho, Brandon Bruce Lee, nasceu no primeiro dia de Fevereiro de 1965. Uma semana depois, o pai do Bruce veio a falecer em Hong Kong. Bruce estava satisfeito de saber que seu pai havia tomado conhecimento acerca do nascimento do primeiro neto. Dado esses eventos e a chegada da remuneração da televisão, Bruce decidiu que era hora de fazer uma viagem à Hong Kong para visitar sua mãe e apresentar à família tanto Linda quanto Brandon. Eles se hospedaram no apartamento da família, na rodovia Nathan, por quatro meses. Durante esse tempo, Bruce pode praticar seu Wing Chun com o Mestre Yip Man e seus colegas da academia.

Ao deixarem Hong Kong, Bruce e sua família viajaram à Seattle onde ficaram por mais quatro meses na casa da família de Linda. Bruce aproveitou para passar um bom tempo com Taky e com os alunos da academia de Seattle. Depois de Seattle, a família mudou-se para a casa de James Lee em Oakland por muitos meses antes de ir definitivamente para Los Angeles. Em Los Angeles, Bruce se aproximou de Dan Inosanto, que havia sido apresentado por Ed Parker anteriormente. Não demorou muito até Bruce abrir sua terceira academia de Gung Fu, tendo Dan como seu instrutor assistente.

Durante todo esse ano de viagem e de trabalho em estreita colaboração com seus colegas de Gung Fu, Bruce passava por um processo intenso de auto exploração. Bruce era um homem de objetivos. No entanto, ele nunca ficava muito obstinado com seus objetivos, e caso o vento mudasse de direção, ele poderia facilmente redirecionar sua vida para um caminho diferente. Ele estava em um período de transição, decidindo se dava sequência em sua carreira de ator ou se continuava abrindo academias de Gung Fu pelo país a fora. Sua decisão foi a de focar na carreira de ator, e ver se ela poderia dar certo. Ele sempre dizia que sua paixão era o caminho das artes marciais, mas sua escolha de carreira era a atuação.

O principal motivo que levou Bruce a focar sua atenção em sua carreira de ator é que ele havia perdido o interesse em divulgar sua arte marcial de forma ampla. Ele começou a perceber que, caso suas academias se tornassem numerosas, ele acabaria perdendo o controle da qualidade do ensino. Bruce amava ensinar Gung Fu, e ele amava seus alunos. Inumeráveis horas eram gastas no seu quintal ou na academia, face a face com seus alunos. Eles eram como membros da família. Seu amor pela sua arte marcial não era algo que ele queria transformar em negócio.

Em 1966 a produção do Besouro Verde começou. A gravação da primeira temporada durou seis meses. O pagamento de Bruce era de U$ 313 semanais, o que era muito dinheiro na época. Quando eles começaram a gravar, as câmeras não conseguiam filmar as cenas de combate de Bruce devido a sua velocidade. Eles pediram a ele para diminuir a velocidade dos movimentos, de forma a conseguir captura-las com a câmera. Os movimentos de Gung Fu de Bruce fazia os telespectadores vibrarem, e o seriado acabou se tornando item de colecionadores nos anos subsequentes.

Os anos entre 1967 e 1971 foram anos de vacas magras para a família Lee. Bruce trabalhou duro para alavancar sua carreira de ator, chegando a fazer alguns papéis em algumas séries de televisão e filmes. Para sustentar a família, Bruce dava aulas particulares de Jeet Kune Do, muitas vezes para as pessoas da indústria do entretenimento. Alguns dos seus clientes foram Steve McQueen, James Coburn, Stirling Silliphant, Sy Weintraub, Ted Ashley, Joe Hyams, James Garner e outros.

A chegada de uma nova filha, Shannon Emery Lee, em 19 de abril de 1969 foi uma grande bênção para a família. Shannon trouxe muita alegria para a casa dos Lee, que logo ficou babando pela filha.

Durante este período, Bruce continuou o processo que tinha começado em Oakland, em 1964, da evolução da sua arte marcial, que ele chamou de Jeet Kune Do, "O Caminho do Punho Interceptador." Ele leu e escreveu extensivamente sobre combate, sobre a psicologia da luta, as raízes filosóficas de artes marciais, e sobre a motivação, a auto-realização e a libertação do indivíduo. Graças a este período de sua vida, que às vezes chegava a ser muito frustrante, podemos hoje saber mais sobre a forma como Bruce Lee pensava as artes marciais, por meio dos seus escritos.

Bruce era devoto do condicionamento físico, e treinava constantemente. Além dos treinamentos de combate com seus alunos, ele praticava séries de exercícios aeróbicos e de musculação. Seus treinos de abdominais e de antebraço eram particularmente intensos. Poucas vezes Bruce ficava sem fazer nada – de fato, ele constantemente estava lendo um livro, fazendo exercícios ou estudando um vídeo com lutas de boxe ao mesmo tempo. Ele também prestava muita atenção em sua alimentação e tomava vitaminas e ervas chinesas algumas vezes. E foi o seu zelo com o condicionamento físico que o levou a uma lesão, que se tornaria fonte de dor crônica para o resto da vida. Em um dia no ano de 1970, Bruce pegou uma barra com 125 quilos para fazer agachamento sem se aquecer antes, algo que ele sempre fazia. Depois de sofrer de muita dor e realizar muitos exames, descobriu-se que ele havia sofrido uma lesão no quarto nervo sacral. Lhe foi receitado repouso total na cama, e ele foi informado que nunca mais lutaria Gung Fu novamente. Bruce foi obrigado a ficar seis meses na cama. Foi um momento extremamente frustrante, deprimente e doloroso, e um tempo para repensar as metas que ele tinha. Foi também nessa época que ele escreveu boa parte do material que temos preservado até hoje.

Depois de vários meses, Bruce começou a colocar em prática seu próprio programa de reabilitação, caminhando cautelosamente no início, até ter força suficiente para andar normalmente. Ele estava determinado a voltar a lutar seu tão amado Gung Fu. Como pode ser visto nos seus vídeos após essa lesão, ele recuperou-se 100%, mas constantemente tinha que colocar compressas de gelo, fazer massagens e repousar para cuidar das suas costas.

Bruce ficava sempre criando histórias. Um de seus projetos envolvia um seriado de TV passado no velho oeste estrelado por um monge oriental que viajava o país resolvendo problemas e conflitos. Ele apresentou sua ideia à Warner Bros, que a recebeu com bastante entusiasmo. Os produtores conversaram bastante com Bruce sobre esse seu projeto, sempre com a intenção que ele representasse o papel do sábio oriental errante. Ao final, o papel não foi oferecido à Bruce; em seu lugar colocaram David Carradine. O seriado era o mundialmente famoso "Kung Fu". O estúdio alegou que atores chineses não eram estrelas financiáveis naquela época. Absolutamente desapontado, Bruce começou a pensar em outras formas de conseguir entrar na Warner, por meio de outros projetos.

Junto com dois dos seus alunos, o famoso escritor e ator Stirling Silliphant, e o ator James Coburn, Bruce elaborou um roteiro e escreveu uma história original para um novo seriado. Ele se chamaria "A Flauta Silenciosa". Novamente, a Warner Bros. se interessou e mandou os três à Índia para procurar locações para as filmagens. Infelizmente, eles não conseguiram achar um local adequado, e o estúdio acabou colocando o projeto em banho-maria. Mais uma vez frustrado em sua tentativa de alavancar sua carreira de ator, Bruce criou uma nova estratégia.

Em 1970, quando Bruce estava se recuperando da sua lesão nas costas, ele fez uma viagem à Hong Kong com seu filho Brandon, com cinco anos na época. Ele ficou surpreso quando foi recebido com entusiasmo pela população como "Kato", o garoto local que estava fazendo sucesso nos Estados Unidos. Ele foi convidado a participar de vários programas de TV. Ele não sabia que produtores de filmes Chineses estavam interessados em seu trabalho. Em 1971, mais ou menos na mesma época em que fracassava o projeto da "Flauta Silenciosa", o produtor Raymond Chow, de Hong Kong, entrou em contato com Bruce para ver se ele tinha interesse em fazer dois filmes para o estúdio Golden Harvest. Bruce aceitou a oferta, uma vez que já que não conseguia entrar em um estúdio Americano, poderia começar a se estabelecer em Hong Kong até que os produtores dos Estados Unidos lhe convidassem para algo. No verão de 1971, Bruce deixou Los Angeles para ir à Hong Kong, e depois à Tailândia para gravar o filme "The Big Boss", posteriormente chamado de "A Fúria do Dragão". Entre Hong Kong e Tailândia, o produtor Run Run Shaw tentou fazer Bruce desistir de trabalhar para a Golden Harvest, mas Bruce já havia assinado um contrato com Raymond Chow, e iria cumpri-lo. A família de Bruce não o acompanhou nas gravações, pois a vila onde estavam rodando o filme não era apropriada para crianças pequenas. Eles haviam combinado que, caso o filme não fizesse sucesso, voltariam à Los Angeles. Apesar das condições de trabalho serem difíceis e da qualidade da produção ficar aquém do que Bruce estava acostumado, o filme acabou sendo um grande sucesso. O lançamento ocorreu em uma sessão à meia noite, como era comum em Hong Kong. O público Chinês era famoso por expressar suas emoções durante a exibição dos filmes, tanto as positivas quanto as negativas. Todos envolvidos na produção estavam muito nervosos, mas nenhum estava mais nervoso que Bruce. Ao final da exibição do filme, todos os presentes no cinema estavam em silêncio, que foi quebrado logo em seguida por gritos de excitação e alegria, assim como por saudações ao novo herói chinês, que assistia ao filme na parte de trás do cinema.

Em Setembro de 1971, com o início das gravações do segundo filme, Bruce mudou-se com toda a sua família para Hong Kong, e preparou-se para vender a casa de Los Angeles. Seu segundo filme obteve ainda mais sucesso que o primeiro, quebrando todos os recordes de bilheteria da época. Agora que Bruce havia finalizado seu contrato com a Golden Harvest, e que se tornava um ator de grande rentabilidade, ele começou a interferir para ter mais qualidade em seus filmes. Para o seu terceiro filme, ele firmou uma parceria com Raymond Chow, chamada Concord Productions. Bruce não apenas escreveu o roteiro do seu terceiro filme, "O Voo do Dragão", como também o dirigiu e o produziu. Mais uma vez, o filme quebrou todos os recordes da época, e dessa vez Hollywood estava prestando atenção!

No outono de 1972 Bruce começou a filmar "O jogo da Morte", uma história que ele mais uma vez havia criado. As gravações foram interrompidas devido a um acordo que ele havia fechado com a Warner Bros. para fazer a primeira co-produção Hong Kong-Estados Unidos. O negócio foi facilitado principalmente pela relação que Bruce tinha com o presidente da Warner, Ted Ashley, e pelo sucesso dos filmes que Bruce havia feito em Hong Kong. Foi um momento de bastante euforia, e um momento chave para a indústria cinematográfica de Hong Kong. O filme "O Jogo da Morte" foi colocado de lado para poder gravar "Operação Dragão". Gravar "Operação Dragão" não foi fácil. O elenco americano e chinês enfrentavam problemas de comunicação, além de outros problemas de produção. Foi um momento de grande estresse para Bruce, já que ele queria que esse filme fosse especialmente bom e que fosse bem aceito pela audiência ocidental. A estreia de "Operação Dragão" aconteceria no teatro Chinês de Hollywood em Agosto de 1973. Infelizmente, Bruce não viveria para ver a estreia do seu filme, e nem teria a oportunidade de curtir mais de trinta anos de sucesso dos seus filmes.

No dia 20 de Julho de 1973, Bruce teve uma pequena dor de cabeça. Lhe foi oferecido um analgésico chamado Equagesic. Após tomar o remédio, ele foi descansar e acabou entrando em coma. Não conseguiram revivê-lo. Um volume grande de investigações de patologia forense foram realizadas para tentar determinar a causa da morte de Bruce. Patologistas de renome de todo o mundo participaram, e chegaram a conclusão que Bruce teve uma reação alérgica à um dos componentes do Equagesic, que acabou gerando um edema cerebral, depois coma e, enfim, sua morte.

O mundo perdeu um brilhante ator e um ser humano evoluído naquele dia, mas seu espírito continua a inspirar um sem número de pessoas ao redor do mundo.
 
Tradução e adaptação: Hudson Golino
Bibliografia: The Bruce Lee Foundation