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Três fases do treinamento do Jeet Kune Do

Hudson Golino
Instrutor 1º Nível - ABJKD
Escola Shien Tao - B.H.
Fast Blast JKD - Arizona - USA

Costumo dividir o treinamento em Jeet Kune Do em três fases: estrutura, fluidez e aplicabilidade. O treinamento da estrutura visa desenvolver no praticante a consciência corporal necessária para que sua postura de corpo e membros lhe possibilite a maior eficiência possível. Esse treinamento envolve a aprendizagem do posicionamento dos pés e das mãos na guarda, os footworks empregados no JKD, e o posicionamento correto do corpo em cada movimento. Já o treinamento de fluidez engloba o desenvolvimento da capacidade de execução dos movimentos do JKD de forma concatenada e fluida, sem perder a estrutura de cada movimento. É nessa etapa que a velocidade começa a ser trabalhada e desenvolvida. Não adianta trabalhar potência e velocidade sem estrutura do corpo. Um soco com a mão da frente pode ter diferentes níveis de complexidade e de eficiência, de acordo com cada pessoa. Para um iniciante é, no geral, um movimento desconectado do restante do corpo, sem velocidade e com potência baixa. Para esse iniciante, que ainda não consegue coordenar os pés, quadril, ombros e mãos para executar o famoso straight lead do JKD, é de pouca ajuda o treinamento da velocidade. Falta-lhe estrutura! Já para um praticante mais avançado, cuja estrutura do movimento está bem desenvolvida, o treinamento de velocidade é condição necessária para sua evolução, assim como o treinamento de concatenação de múltiplos golpes com os pés e mãos. Para esse praticante, um soco com a mão da frente é uma das suas armas principais em um combate, pois consegue realizar um movimento que soma diferentes vetores de força, do calcanhar da perna de sustentação traseira até o punho, passando por todas as unidades intermediárias do movimento. Mesmo movimento, dois níveis de complexidade. Mas o JKD estaria incompleto caso parasse no treinamento de fluidez. Estrutura e fluidez são condições necessárias, mas não suficientes, para um bom desempenho em uma situação real. E é exatamente aí que entra a terceira fase de treinamento: aplicabilidade.

É importante que o leitor não confunda fluidez com aplicabilidade. Ser fluido, ou seja, conseguir executar os movimentos mantendo a estrutura do corpo e das posições, mas com leveza, velocidade e com diferentes combinações, não é o mesmo que ser apto a aplica-los em um combate real. Como todos sabem, em um combate real não há regras, não há posições previamente estabelecidas, não há ângulos exatos de execução de movimentos, não há tempo para pensar. Em um treinamento diário na academia, refina-se a estrutura e evolui-se a fluência dos movimentos. Isso é feito sozinho ou com um parceiro de treino. Utiliza-se o pak sao por exemplo em uma saída com o straight lead, contra um golpe do adversário. Isso ainda é a junção de estrutura e fluidez. Para se treinar a aplicabilidade é preciso que o treino seja direcionado para situações reais. Imagine a seguinte situação. Você já treinou o straight lead, já treinou o tan sao invertido, e acabou de realizar um treinamento de interceptação! Agora vamos tornar tudo isso aplicável em situações reais. O seu parceiro de treino se posiciona em uma distância média, ou seja, com o braço esticado ele não consegue te encostar e é obrigado a dar um passo caso queira acertar um soco em alguma parte do seu corpo. Você está em sua guarda de combate, mão e perna dominante frente do corpo. O parceiro de treino irá começar da chamada matching position, que é a mesma guarda que você fez. Suponhamos que você seja destro, então sua mão direita e seu pé direito estarão à frente do corpo. No matching position o parceiro de treino também está com o pé e a mão direita à frente do corpo. Você irá treinar exclusivamente a interceptação com straight lead. O seu parceiro de treino irá começar com socos retos usando a mão da frente (jab ou o straight lead), depois irá executar socos retos usando a mão traseira (soco direto). Faça dez repetições. Para cada movimento do parceiro de treino, execute uma interceptação. Varie o tempo da interceptação: na intenção de ataque, na preparação, no início do movimento, no meio do movimento, ao final do movimento. Continue em sua posição de combate, e agora execute a mesma interceptação (usando o straight lead) contra chutes com a perna da frente e com a perna traseira (chute lateral ou frontal). Repita o mesmo procedimento (socos retos com a mão da frente e com a mão traseira, chutes com a perna da frente e com a perna traseira), mas com o parceiro de treino em uma posição espelhada (unmatching position), ou seja, agora ele se posicionará com a mão e perna esquerda à frente do corpo. Faça mais dez interceptações para cada tipo de ataque. Ao finalizar essa etapa, você já terá executado cerca de 80 interceptações. Lembre-se de variar o tempo da interceptação, como dito anteriormente, e de não criar um ritmo. Ritmo quebrado é um dos pilares do JKD! Retorne à matching position, e agora faça interceptações contra socos em ângulo, por exemplo cruzados. Seu parceiro de treino deverá sempre começar com movimentos usando a mão ou perna dominante, e depois realizar com a mão ou perna traseira. Mude para a unmatching position e faça mais interceptações contra socos em ângulo. Até aqui você já deve ter executado aproximadamente 120 interceptações! Para finalizar, faça cerca de 30 interceptações usando o straight lead mas sem combinar previamente qual movimento seu parceiro de treino irá executar. Essa é a chamada interceptação livre de distância média. As chaves para um bom treinamento de aplicação de interceptação é se atentar aos princípios do JKD!

Esse foi só um exemplo de como trabalhar a estrutura, a fluidez e a aplicabilidade em Jeet Kune Do. Quem quiser seguir esse planejamento em um treino, facilmente executará mais de 150 interceptações com straight lead. Será cansativo, exaustivo, e o corpo começará a falhar. E é nessa hora que devemos ficar mais atentos aos princípios biomecânicos dos movimentos:

  1. evitar telegrafar o golpe;
  2. usar a bola do pé traseiro como força propulsora do soco;
  3. usar o quadril como complementação ao movimento da bola do pé gerando a transferência de peso para o punho;
  4. alinhar o corpo na posição de ao fundo da esgrima ocidental;
  5. acertar o alvo antes de aterrissar o pé da frente no solo e;
  6. usar a respiração e os músculos respiratórios a favor do movimento. O Jeet Kune Do é uma arte sofisticada, e de treinamento árduo e difícil. Para mais dicas de treinamento, fique ligado no portal da ABJKD!