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O que aprendi e o que ensinei: Lições de Jeet Kune Do no Brasil e nos EUA

Hudson Golino
Instrutor 1º Nível - ABJKD
Escola Shien Tao - B.H.
Fast Blast JKD - Arizona - USA

Quando alguém escuta o nome Jeet Kune Do, inevitavelmente pensa-se em Bruce Lee. É uma associação automática, justa e quase impossível de não ser realizada. Por outro lado, quando se discute sobre o Jeet Kune Do, a arte marcial em si, entra-se em um mar de controvérsias, mal-entendidos e vieses de interpretações, algumas vezes sadias, outras bastante equivocadas. Nas palavras do próprio Bruce, o JKD é “a expressão direta dos sentimentos de um indivíduo, com o mínimo de movimento e energia1”. É uma definição bonita, mas subjetiva. Aliás, é justamente na subjetividade de algumas de suas expressões isoladas que residem, desde sua morte, os mal-entendidos sobre o JKD. Somam-se a isso alguns fatos misteriosos, como o ocorrido em 1970. Nessa época, Bruce fechou sua academia em Los Angeles e pediu à Dan Inosanto que não ensinasse mais JKD ao público em geral (Tacktett & Bremer, 2008). Bob Bremer relata que ao ser perguntado o porquê dessa decisão, Bruce respondeu “se conhecimento é poder, por que passar adiante de maneira indiscriminada?”. Em suma, como resultado da popularidade de Bruce, da subjetividade e do conteúdo filosófico de algumas de suas afirmações, da sua proposta inovadora e de alguns mistérios envolvendo suas decisões e atitudes, o Jeet Kune Do se tornou uma das artes marciais mais conhecidas e mal-compreendidas do mundo (Tackett & Bremer, 2008).

É comum nós, praticantes, estudiosos e divulgadores do Jeet Kune Do, escutarmos algumas perguntas ou afirmações como “O JKD é somente fazer as coisas da nossa maneira?”, “O JKD é só uma filosofia?”, “O JKD é só uma modificação pessoal que Bruce Lee fez do Wing Chun?”, ou “O JKD morreu com o Bruce...”.  Essas questões serão trabalhadas ao longo desse artigo, de maneira breve e introdutória.

Em primeiro lugar, o JKD não morreu junto com Bruce, apesar de ser verdade que a arte estava em pleno desenvolvimento na época do seu falecimento. Lee era um pensador crítico, e como tal buscava se aprimorar constantemente:

“Toda a vida de Bruce foi marcada por um constante processo de evolução, e não há forma melhor de verificar essa sua característica do que com o seu trabalho nas artes marciais (...)” (Linda Lee, 1989, Pg. 53)

O JKD reflete essa sua característica, e possui em seus postulados fundamentais indicativos de que a prática marcial deve ser pautada por uma postura constantemente crítica, reflexiva, e adaptativa. A postura crítica e reflexiva diz respeito ao julgamento sobre o que, como e porque se realiza um movimento ou ação (comportamento), tendo como parâmetro de análise o objetivo dessa ação. Ou seja, é a postura ativa do artista marcial frente à técnica, analisando se aquela é a melhor forma de se realizar o movimento do ponto de vista biomecânico do seu próprio corpo, e se é o movimento mais simples, direto e eficaz. A postura adaptativa, por sua vez, engloba uma série de julgamentos e testagem prática desses julgamentos, a respeito do caminho da ação, ou da realização de um movimento técnico. É o componente fundamental de qualquer sistema que pretende ser dinâmico. Em outras palavras, é o resultado esperado da atitude crítica e reflexiva, que possibilita a expansão e melhora da arte marcial. Portanto, levando em consideração as concepções filosóficas e teóricas de Bruce, assim como alguns de seus traços de personalidade e jeito de ser (como sucintamente retratado por Linda Lee na citação acima), podemos concluir que a arte planejada e desenvolvida por Bruce não morreu, e nem poderia morrer, com ele. A arte do JKD ainda se desenvolve, e irá sempre se desenvolver, dentro de suas possibilidades e limitações.

Em segundo lugar, o JKD não é apenas uma modificação do Wing Chun. É uma arte marcial complexa, que tem suas origens no Wing Chun, assim como em várias outras fontes, uma vez que surge a partir dos estudos sistemáticos realizados por Bruce Lee sobre várias artes marciais e sistemas de combate.2 Em outras palavras, o JKD é influenciado por uma série de artes marciais, mas não pode ser resumido a nenhuma delas, assim como não pode ser encarado como uma mistura das mesmas.

“Por exemplo, Bruce utilizou alguns socos e métodos de treinamento do Boxe ocidental em sua arte, mas JKD não pode ser considerado o Boxe em si porque não trás consigo a idéia de que um soco menor, como o jab, é só a preparação para um golpe maior. Da mesma maneira, o JKD utiliza algumas teorias de combate da Esgrima ocidental, mas está longe de ser um sistema que apenas golpeia com a mão da frente. Na verdade, Bruce fez pelas artes marciais mais ou menos o que Einstein fez pela ciência. Einstein estudou muito sobre a física, leu tudo o que pôde dos cientistas que o precederam em seu campo. Sendo assim, tendo construir todo esse conhecimento, ele conseguiu chegar a uma idéia original...” (Takcett & Bremer, 2008, pg. 05).

Resumidamente, Bruce desenvolveu uma arte marcial específica, original, e de certa forma pioneira. Seu olhar focava a verdade subjacente a todas as artes marciais. Ele não pegou “um soco daqui” e “um chute dali”, o que ele fez foi construir todo um sistema de conhecimento, que não se limitava às artes e sistemas marciais, mas que entrava no campo da mecânica corporal, da educação física, dentre outros segmentos do conhecimento disponível na época. O desenvolvimento do JKD se deu, portanto, de forma dialética, ou seja, uma síntese que transcende aos elementos predecessores antagônicos, representados como as artes marciais clássicas.

“(...) Então ele começou a dissecar a luta, procurando um caminho que melhorasse o seu desempenho. Nessa época ele havia concluído que as bases fundamentais do Wing Chun lhe limitavam. Colocavam muita importância nas técnicas de mão, havia poucas técnicas de chute, e ainda era, além de tudo, um estilo parcial. Tendo percebido as limitações físicas do Wing Chun, ele começou a explorar e a pesquisar, de modo a testar novos movimentos e a repensar os estilos tradicionais. Ele não realizou essa tarefa pulando de instrutor a instrutor, de estilo a estilo, mas sim por meio da busca interior do que era melhor para ele, rejeitando o que fosse inadequado e buscando incorporar o que fosse apropriado (...).” (Linda Lee, 1989, Pg. 54).

Em terceiro lugar, o Jeet Kune Do não pode, em hipótese nenhuma ser chamado de “apenas uma filosofia”. Esse tipo de crítica fere dois pressupostos básicos, um de natureza teórica, e outro de natureza prática. O primeiro pressuposto ferido diz respeito ao que se entende por filosofia, vista como o campo de estudo focado no “pensar racional e crítico, de modo mais ou menos sistemático, sobre a natureza do mundo em geral (metafísica ou teoria da existência), da justificação de crenças (epistemologia ou teoria do conhecimento), e da conduta de vida a adotar (ética ou teoria dos valores)” 3. O JKD não é, nunca foi e nunca será, uma filosofia, apesar de incorporar alguns conceitos de origem filosófica, oriundos tanto da tradição ocidental quanto oriental4. O segundo pressuposto ferido esbarra na finalidade primordial do JKD: a auto-defesa. Uma arte que tem como alguns dos objetivos a defesa pessoal, o aprimoramento físico e técnico visando acabar com um combate no menor tempo possível, não pode ser considerado apenas como uma “filosofia” ou como uma “teoria de combate”.

Por último, o JKD não é “fazer as coisas do meu ou do seu jeito”. Esse argumento é um dos mais comuns, e o que demonstra de maneira mais clara a falta de compreensão objetiva sobre o que vem a ser o JKD. Do ponto de vista teórico, Bruce argumentava que o JKD deveria ser a expressão pura e verdadeira daquele que o pratica. Isso não significa “fazer as coisas da minha ou da sua maneira”, isso significa expressar-se de forma simples, direta, não-clássica, tendo como referência as habilidades e limitações físicas daquele que o pratica. Não é uma bagunça completa, onde pode tudo desde que seja “o correto para mim”. Quando Linda Lee argumenta que Bruce buscava o que fosse melhor para ele, ela aponta o caminho: Bruce buscava o que era melhor PARA ELE, rejeitando o que fosse inadequado e buscando incorporar o que fosse apropriado. Aparentemente essa frase confirma algumas das afirmações e perguntas refutadas nos parágrafos anteriores. Mas isso acontece apenas se a considerarmos de maneira isolada, sem levar em consideração outros aspectos extremamente importantes. Brevemente falando, Bruce buscava o que pudesse tornar sua técnica mais eficaz, o que permitisse que seu corpo liberasse o máximo de energia com um mínimo de movimento. Ele pesquisava, lia, colocava em prática, modificava, colocava em prática novamente, pensava, e então incorporava o que lhe parecesse adequado, naquele momento. Poderia permanecer assim para sempre, assim como poderia ser deixado de lado em um momento posterior. Aí entra a questão da adaptabilidade. No entanto, como exposto em uma citação anterior, Bruce buscava a verdade comum subjacente às artes marciais, ou seja, ele procurava elementos estruturais utilizados em vários estilos e linhas que possibilitasse eficiência, velocidade e potência em seus movimentos. A partir desse tipo de busca, ele começou a perceber certos invariantes, a descobrir novas formas de se movimentar, simplificando os movimentos longos, potencializando-os. Dessa forma, ele foi montando uma espécie de sistema marcial, um conjunto técnico robusto, estruturalmente comum, mas passível de evolução, desde que estivesse de acordo com alguns preceitos básicos.

Esse núcleo técnico pode ser denominado como JKD Original, que engloba uma série de mecanismos estruturais de movimentação, com o foco na interceptação de movimentos. O JKD é, em primeira e última instância “ofensivo, vivo e livre”1. Sendo vivo, ele se desenvolve e evolui. Essa evolução pode ser verificada por meio das técnicas utilizadas pelos alunos de Bruce, ao longo da sua trajetória nos Estados Unidos, começando com o Wing Chun modificado, ensinado à Taky Kimura, até o JKD Original trabalhado com o Ted Wong.5 No entanto, tal evolução é limitada por mecanismos constrangedores, que são os sete postulados fundamentais do JKD:

1) Velocidade (velocity);
2) Fluidez (flow);
3) Movimentos não telegráficos (deception);
4) Simplicidade (simplicity);
5) Sensitividade (sensitivity);
6) Potência (power);
7) Bater a cada oportunidade (hit in every single moment);

Aquele que pratica Jeet Kune Do deve ter em mente esses postulados fundamentais para conseguir adaptar as técnicas do núcleo central do JKD à sua capacidade física, habilidade, flexibilidade, dentre outras características individuais. Seguindo esses princípios, é possível continuar com o processo de evolução da arte. Por outro lado, isso não significa que cada praticante de JKD tenha que fazer a arte evoluir, ou que não exista um conjunto técnico próprio, comum a todos os praticantes. Da mesma forma, não significa que cada praticante tem um único caminho próprio, logo uma forma exclusiva de lutar, em termos de repertório técnico, sendo extremamente particular... isso não é compreender o JKD em sua plenitude. Assim como não é compreender o JKD dizer que ele não possui base, não possui guarda pré-definida, já que o lema do JKD é “ter não-forma como forma, ter não-caminho como caminho”, além de ingenuidade técnica, isso é jogar a bacia e o bebê fora!

E isso tudo foi, curioso e peculiar como o próprio JKD, o que aprendi e o que ensinei, no meu caminho pela arte do Jeet Kune Do, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Aprendi que o JKD é dinâmico, direto, fluido, adaptativo, não-telegráfico, veloz, potente, aproveita cada momento e não desperdiça nenhuma oportunidade. Tive esse aprendizado (e continuo tendo) ao longo do meu percurso, treinando na Escola Shien Tao de JKD, sob orientação do Prof. Ricardo Aguiar e supervisão do Prof. Alexander Terra, estudando por meio de livros e praticando continuamente. Quando fui aos EUA, tive a oportunidade de afiar minhas ferramentas com um treinamento intensivo e rigoroso, feito em parceria com o Instrutor Chris Garner, formado pelo Jerry Poteet, estudante direto do Bruce Lee. E aprimorei ainda mais alguns conceitos e técnicas na Wednesday Night Group, do praticante brilhante de JKD, Tim Tackett, com a ajuda do instrutor responsável pelas aulas do grupo, Jeremy Lynch.

E o que ensinei? Basicamente que a arte desenvolvida por Bruce Lee, se bem compreendida, pode ser treinada de maneira muito semelhante, em qualquer lugar do mundo, desde que se tenha orientação correta, mesmo que os instrutores não possuam vínculo formal com ex-alunos do grande mestre. Ensinei que com empenho e dedicação é possível atingir níveis técnicos aprimorados. No meu caso, não foi um empenho e dedicação exclusivamente meu, mas sim o empenho e dedicação de um grupo de pessoas extremamente focadas, habilidosas, parcimoniosas, inteligentes e com sensibilidade suficiente para desenvolver uma Escola de JKD com qualidades internacionais. Faço essa declaração sem falsa modéstia, porque o orgulho que senti (não um orgulho egoísta de vitória pessoal, mas orgulho de ser parte de um grupo forte, unificado e eficiente) ao ser convidado para ser private student6, e ao ter o meu JKD reconhecido e fortemente elogiado por um instrutor formado por um ex-aluno do Bruce, foi ímpar. Naquele momento eu era muitos, e ao mesmo tempo apenas um. Eu era Hudson, Ricardo, Alexander, Renato, Marcelo, Adriano, Uriatan, e mais outros tantos praticantes apaixonados e divulgadores contumazes da arte do Jeet Kune Do. Eu era a Escola Shien Tao, eu era a ABJKD. E eu era história também, porque todos esses praticantes (e tantos outros do passado e do presente) são parte de uma longa e interessante história, diga-se de passagem7.

Concluo esse breve artigo com três perguntas de fundamental importância, que deverá guiar o treinamento de cada praticante de JKD, interessado em seguir os caminhos construídos inicialmente pelo mestre Bruce Lee:

1) Como eu posso utilizar o que estou aprendendo e aprimorando em uma situação real de combate com um ou mais adversários?
2) Mesmo que eu seja capaz de executar esse movimento, ele é veloz, fluido, não-telegráfico, oportuno, potente, simples, sensitivo, etc?
3) A minha técnica é veloz, fluida, não-telegráfica, oportuna, potente, simples, sensitiva, etc, suficientemente para poder realizar aquilo que ela deveria realizar?

“Jeet Kune Do é simples em sua execução, mas não é simples de ser explicado, nem de ser ensinado”
(Bruce Lee, 1967)


1 Bruce Lee em entrevista concedida à Maxwell Pollard, da Black Belt Magazine, edição de Novembro de 1967, disponível em:
http://books.google.com.br/books?id=RM4DAAAAMBAJ&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false
2 Para uma discussão e apresentação prática de algumas das diferenças entre JKD e Wing Chun, consultar o clássico Wing Chun Kung Fu / Jeet Kune do: A comparison. Vol.1, de Willian Cheung e Ted Wong, publicado em 1990 pela Ohara Publications, Santa Clarita – Califórnia.
3 Quinton, A. (1995). Philosophy. In: Honderich (Ed.). The Oxford Companion to Philosophy. Oxford University Press, London.  Tradução de Paulo Ruas, disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/quinton2.htm
4 Vale à pena citar que conceituar O que é filosofia é uma das tarefas mais difíceis e ingratas. Não é, nem de longe, objetivo do artigo apresentar uma noção geral sobre Filosofia. Quem tiver interesse e/ou curiosidade no assunto, indico o livro Convite à Filosofia, da Profa. Marilena Chaui, do Dpto. de Filosofia da USP, publicado pela editora Ática no ano de 2000.
5 Esse será tema de outro artigo, no qual apresentarei as principais escolas de JKD, os principais líderes, e a fase de desenvolvimento do JKD em cada uma dessas escolas.
6 A condição de private student é bem peculiar nos círculos de JKD dos EUA. Geralmente, essa classe de estudante não é aberta, tendo que ser formalmente convidado por um instrutor. De fato, alguns instrutores têm como private student apenas pessoas amigas, de um grupo seleto de pessoas de confiança. Essa prática era empregada também por Bruce.
7 Essa história será um dia contada...


Referências:
Tackett, T. & Bremer, B. (2008). Chinatown Jeet Kune Do: Essential elements of Bruce Lee’s Martial Art. Black Belt Books.
Lee, L. (1989). The Bruce Lee Story. California: Ohara Publications Inc.