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Jeet Kune Do: A Essência da Arte

Hudson Golino
Instrutor 1º Nível - ABJKD
Escola Shien Tao - B.H.
Fast Blast JKD - Arizona - USA

Há cerca de 40 anos atrás, um sujeito mal informado apareceu na porta da Jun Fan Gung Fu Institute inspirado pelo herói da televisão da época, o habilidoso Kato da série The Green Hornet. O primeiro encontro foi marcado por uma pergunta seca, direta, que o acertou como um golpe.

“Quem é você?”, perguntou Bruce.

Não era uma maneira muito encorajadora de se iniciar uma conversa. Mas foi o início de uma amizade, e de uma relação de aprendizado mútuo, que durou até a morte de Bruce em 20 de Julho de 1973.

Na ocasião do primeiro encontro, Ted Wong não sabia que o instituto só recebia alunos sob indicação e que possuíssem experiência prévia em Artes Marciais. Ele fora ao encontro de Bruce sem nenhuma bagagem marcial, movido apenas pelo ímpeto de conhecer e poder aprender aquela arte impressionante. A pergunta inicial foi seguida de uma conversa em Cantonês. A nacionalidade de Ted talvez tenha sido o passaporte que o permitiu entrar no seleto grupo de estudantes da Jun Fan Gung Fu.

Após algum tempo de treinamento coletivo, junto com os outros praticantes, Ted foi aceito como aluno particular de Bruce, e passou a treinar no quintal de sua casa. Em pouco tempo tornou-se o sparring preferido, sendo sempre requisitado aos finais de semana para o treinamento pessoal do Sijo Bruce. Seus quatro anos de treinamento supervisionado culminaram com o recebimento de um certificado de instrutor. Ted Wong foi um dos poucos a receber tal reconhecimento. Em 1973, Ted ficou sem mentor. Bruce foi embora cedo demais.

O 5º Encontro Nacional de Jeet Kune Do, promovido pela ABJKD, foi dedicado ao Sifu Ted Wong. Essa homenagem não teve como objetivo reverenciar um ex-aluno do Sijo Bruce Lee, mas sim celebrar a memória de uma das personalidades mais intrigantes e marcantes da história do Jeet Kune Do.

Ter sido aluno do Bruce Lee, ter recebido um diploma de reconhecimento de sua qualidade técnica, ter sido seu sparring preferido e amigo próximo, não torna Ted Wong uma pessoa especial. O que o torna especial é a história posterior à morte de Bruce. E é a essa história que prestamos essa homenagem.

As qualidades técnicas aliadas ao privilégio de ter convivido durante tantos anos com o grande astro do cinema, torna o Sifu Ted Wong uma pessoa com todos os pré-requisitos para o estrelato, fama e fortuna, tendo como carro chefe a arte do Jeet Kune Do. Ele poderia ter aberto uma grande rede de academias, ou ter se tornado um treinador de grande sucesso. Pessoas viajariam de todas as partes do mundo, apenas para ter o prazer de treinar ao lado do “protegido” de Bruce. Atores e pessoas famosas, lutadores profissionais de MMA, forças armadas e todas as pessoas com interesse pelo JKD desembolsariam grandes quantidades de dinheiro para aprender a arte de Bruce Lee. Por mais dolorosa, a perda de seu mestre e amigo poderia ter representado uma excelente oportunidade comercial e financeira. Apenas poderia.

A morte de Bruce Lee, no entanto, trouxe uma nova situação para Ted. Havia perdido seu mestre, mentor e amigo. Mas lembrou-se de uma das grandes marcas e ensinamentos de Bruce:

Walk on!”, dizia ele.

Foi o que Ted fez. Continuou seu caminho, sua jornada. Durante quinze anos permaneceu recluso. Confinou-se no estudo das diversas artes marciais que Bruce estudava detalhadamente, tendo como oficina de pesquisa a imensa biblioteca pessoal do seu mestre. Ted Wong conseguiu entrar no mundo dos pensamentos de Bruce Lee ao mergulhar-se sobre seus livros, anotações, comentários e gravações em vídeo. Lembrou-se dos seus ensinamentos básicos, e tentou olhar o mundo com seus olhos.

Nos 15 anos que se seguiram, Wong desenvolveu uma sólida compreensão do que Lee tentou ensiná-lo. Wong não completou seu arsenal com técnicas de outras artes. A única coisa que ele adicionou ao Jun Fan Jeet Kune Do foi uma compreensão e análise que possibilita às futuras gerações conhecer e se beneficiar com o trabalho de vida de Bruce Lee.1

E assim, no início dos anos de 1990, Ted Wong sai das sombras e inicia sua jornada em prol do JKD e da memória do seu mestre. Começa a ensinar JKD a pequenos e seletos grupos de pessoas, na garagem de sua casa. Ajuda a fundar a Bruce Lee Foundation (BLF), da qual fazia parte do Conselho de Diretores. Forma alguns poucos instrutores, dentre eles Teri Tom (Los Angeles, Califórnia) e Albert Grajales (Aguadilla, Porto Rico), dois de seus mais conhecidos alunos diretos. Além das aulas em sua casa, Ted começa a viajar ao redor do mundo, supervisionando e formando grupos de treinamento. É pelas mãos do sifu Ted Wong que Tommy Carruthers recebe o certificado de Instrutor de JKD, tendo sido reconhecido logo em seguida por todos os outros membros do conselho diretor da BLF.

Sifu Ted Wong faleceu no dia 24 de Novembro de 2010, aos 73 anos de idade. E é à sua memória que dedicamos o evento deste ano. Que o dia 29 de Janeiro de 2011 esteja à altura do seu homenageado.

Para finalizar esse breve comentário, nada mais justo do que ter acesso ao pensamento e idéias do Sifu Ted Wong. Nesse sentido, transcrevemos a tradução de um artigo seu publicado na revista Inside Kung Fu.

A Essência do Jeet Kune Do,
Por Ted Wong.

“Em meu primeiro artigo, eu escrevi sobre a importância do posicionamento das armas principais (perna e mão dominante) à frente do corpo, no treinamento do Jeet Kune Do. De igual importância é executar um chute ou soco sem movimentos desnecessários ou telegráficos. Isso é essencial para o que Bruce Lee chamava de “totalidade de combate”.

Para Bruce, a totalidade do combate mão a mão direto significava todas as abordagens possíveis de luta. Não significava, e não significa, a soma de todas as técnicas de todos os estilos existentes. Totalidade não é a junção de 16, 32 ou 128 diferentes sistemas marciais. Desde que tenhamos em mente a importância de não empregar movimentos desnecessários e/ou telegráficos, totalidade é, de fato, o exato oposto da junção de sistemas diferentes. Isto é, retirar os movimentos não essenciais de todos os diferentes estilos. Totalidade não é a acumulação de técnicas, mas a simplificação das técnicas para fazer toda e qualquer abordagem de combate o mais direto e efetivo possível.

Jeet Kune Do não é um estilo clássico. Sua finalidade não é restringir ou limitar o praticante. Ele não leva o praticante a focar-se em um aspecto parcial do combate. A totalidade do combate é irrestrita e não condicionada, uma vez que combate nunca é algo fixo, mas sim mutável, de momento a momento. Bruce criou (derivou) o JKD para trazer de volta a totalidade do combate. Ele uma vez descreveu sua sistematização do JKD comparando-a com o trabalho de um escultor: ‘Um escultor ao criar sua arte, não fica adicionando argila, mas sim a retira, pedaço por pedaço, até que a verdade lhe seja revelada. Então, como um escultor, o praticante de Jeet Kune Do não fica adicionando técnicas, mas sim corta o que não for necessário em sua arte, até que o verdadeiro espírito da arte marcial possa ser expresso’.

Além disso, ‘Jeet Kune Do, em última instância, não é uma questão de técnicas triviais, mas sim de desenvolvimento físico e espiritual. Não é uma questão de desenvolver o que já foi desenvolvido, mas de recuperar o que foi deixado para traz.  Essas coisas têm estado com a gente, lá dentro, todo o tempo, e nunca foram perdidas ou distorcidas, exceto pela nossa manipulação equivocada delas (nos estilos). Em JKD, todas as técnicas devem ser esquecidas, e o subconsciente deve ser deixado sozinho para lidar com as situações. A técnica fará valer seus prodígios de maneira automática ou espontânea. Jeet Kune Do não é uma questão de razão, mas de insight espiritual e treino’.

A abordagem de Bruce era/é extremamente completa. Ele era incrivelmente eficiente em olhar vários ângulos possíveis de entrada para ataques. Ele classificou o combate em quatro alcances ou distâncias:1) de chute; 2) de soco; 3) de trapping; e 4) de grappling. Bruce ressaltou a importância da mobilidade e de manter-se, ao mesmo tempo, bem orientado e em equilíbrio por meio da manutenção da altura do centro de gravidade em relação ao solo. Ele salientou, também, a importância de permanecer alerta e atento ao ambiente o tempo todo. Ele se concentrou em desenvolver maior velocidade, menor tempo de reação e diferentes métodos de ataque, com potência e energia, tendo como apoio um adequado preparo físico. Isso era o que Bruce queria dizer com totalidade de combate!”.

1 Teri Tom, na homenagem da Black Belt Magazine de 2006, quando a revista escolheu o Sifu Ted Wong como Homem do Ano, entrando definitivamente no hall da fama da revista.