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Qual deve ser o foco do Artista Marcial?

Hudson Golino
Instrutor 1º Nível - ABJKD
Escola Shien Tao - B.H.
Fast Blast JKD - Arizona - USA

“E depois de tudo, céu e terra aí estão, como se nada tivesse acontecido. A esta altura, a vida e as ações de um homem têm o peso de uma folha seca no meio da ventania...” (Myamoto Musashi).

As palavras do grande artista marcial M. Musashi é de uma profundidade típica daqueles que fazem da vida pessoal uma busca constante e interminável pelo “caminho da simplicidade e da verdade”, pela iluminação espiritual e pelo aprimoramento intelectual. A força bruta e impulsiva da juvenilidade – e por juvenilidade aqui me refiro não apenas a questão da idade, mas à maturidade neurológica e cognitiva que nos permite pensar de maneira mais abstrata, planejada, controlada e, por conseqüência, menos impulsiva – foi se transformando em aprimoramento físico, técnico e espiritual ao longo de sua vida. Os objetivos de Musashi também foram se alterando, aos poucos, de uma vontade incontrolável de ganhar fama por sua capacidade de luta, para uma vontade controlada de buscar o aprimoramento pessoal, técnico, assim como o auto-conhecimento. O resultado do caminho de Musashi é bem conhecido: ele se tornou um dos mais exímios artistas marciais de seu tempo, sendo extremamente respeitado, admirado e reconhecido. Ele teria conseguido o mesmo resultado, em sua vida, caso não tivesse mudado sua postura e atitude? Mais do que isso, teria valido a pena? A resposta é seca e contundente: Não!

Musashi só conseguiu se tornar um espadachim de habilidades admiráveis porque se dedicou à arte de compreender o movimento do corpo humano em junção com a ferramenta marcial de sua preferência. Estudou seu próprio corpo, seus próprios movimentos, assim como os movimentos de outros samurais, goushis e lutadores do seu tempo. Dedicou-se profundamente à observação crítica dos combates, guerras, e suas respectivas estratégias. Buscou compreender como o desenvolvimento e aplicação de técnicas de respiração e de Ki poderiam ampliar seus limites, e fazê-lo atingir níveis antes não possíveis de habilidade. Mas, não focou-se apenas nesses pontos. Dedicou-se ferozmente ao desenvolvimento da capacidade de desapego emocional e do respeito ao próximo.

E são exatamente esses dois últimos pontos da trajetória de Musashi que quero focar neste texto.

Quando treinamos Jeet Kune Do, ou qualquer outra arte marcial, devemos ter em mente algumas perguntas retóricas: O que eu quero com este treinamento? Quais são os meus objetivos? Por meio dessas questões podemos ter um indicador de qual caminho queremos e/ou pretendemos seguir. Se a sua resposta for “quero treinar bastante para evoluir tecnicamente, e assim conseguir ser instrutor”, o seu modo de ação é válido, pois irá treinar bastante para desenvolver sua técnica, mas a sua motivação está indo para um caminho equivocado. Em qualquer arte marcial o objetivo do praticante não deve ser obter uma faixa, um reconhecimento, um grau ou um certificado. Esse é um caminho que trará muitas angústias e sofrimento, pois é, geralmente, baseado na vaidade, na busca por um reconhecimento social superficial, e fortemente voltado para o ego do praticante. Uma faixa, um grau, um título ou um certificado qualquer poderá te fazer sentir especial. Poderá, inclusive, fazer com que algumas pessoas te respeitem (pelo medo ou ignorância de achar que uma faixa na cintura ou um título na parede significa, necessariamente, qualidade técnica). Mas não fará com que você evolua como artista marcial ou como pessoa. Não garante qualidade técnica eterna (como se qualidade técnica fosse um título, que uma vez recebido lhe acompanha para o resto da vida), porque é um estado do indivíduo, reconhecido pelos seus pares. E é apenas isso: Um estado. E, como tal, muda constantemente. Aquele que um dia recebeu a faixa X, ou o título Y, ou o Grau K, poderá, em questão de poucos meses, regredir tecnicamente ao nível de um aluno mediano. E é justamente aí que entra a questão: O que o praticante de arte marcial deve focar?

O artista marcial deve ter como objetivo último o auto-aprimoramento constante, buscando estar melhor hoje do que era ontem, e pior do que poderá vir a ser amanhã. Desde o início dos treinamentos, um praticante de arte marcial deve tentar compreender que a evolução técnica e pessoal é um ato interminável de busca. E, como em toda busca, é repleto de altos e baixos, de alegrias e tristezas, êxtase e angústias. No entanto, se o foco do indivíduo é no seu aprimoramento, as tristezas, as angústias, os momentos difíceis serão mais rapidamente superados, e, principalmente, melhor compreendidos. Nem só de acertos, vitórias e felicidades vivem os seres humanos, e os momentos difíceis, os erros e as pedras no caminho são excelentes fontes de aprendizado.

Em Jeet Kune Do, essa ênfase deve ser ainda mais forte. Em vários escritos, Bruce deixava claro que a sua arte marcial era a arte da busca pelo aperfeiçoamento individual. Quando temos esse foco, buscamos conhecer nosso corpo, compreender nossa movimentação, detectar nossos pontos fortes e fracos, aprimorando continuamente o primeiro e buscando adaptar-nos ao segundo. Esse movimento de buscar o conhecimento pessoal pode levar o artista marcial a níveis bastante elevados, porque o ajuda a desenvolver a capacidade de pensar sobre e controlar o próprio pensamento e emoções, a ter maior percepção sobre seu corpo e movimentação e, consequentemente, utilizar o máximo da sua própria estrutura para aumentar a velocidade e potência dos seus movimentos.

Além do aprimoramento técnico em si, o artista marcial aumenta a possibilidade de se desenvolver enquanto pessoa. Focar no desenvolvimento individual faz com que o sucesso do outro seja visto como uma vitória daquela pessoa em específico, e não uma afronta a nós mesmos. Essa afronta só é percebida quando nos sentimos ameaçados pelo sucesso alheio, seja porque o outro consegue ter maior nível técnico, ou maior reconhecimento dos pares e da sociedade como um todo. Se focarmos em nossa própria técnica, em nosso próprio aprendizado e em nossa superação cotidiana, o caminho não apenas nos leva a patamares elevados tecnicamente, mas também se torna mais agradável. Ademais, o foco no aprimoramento individual leva, também, a uma maior compreensão sobre as outras pessoas. O respeito ao próximo é, então, uma conseqüência de todo esse processo. As características superficiais, as classificações e os julgamentos que fazemos dos outros deixam de ter importância, uma vez que temos a possibilidade de compreender que há um núcleo central do indivíduo que transcende às aparências. A partir dessa constatação, há a possibilidade de respeitar e de admirar o esforço daqueles que também buscam o auto-aprimoramento. Respeita-se o artista marcial que pratica Karatê-Dô, Judô, Jiu-Jutsu, Jiu-Jitsu Brasileiro, Capoeira, Kung-Fu, e qualquer outra arte marcial. Respeita-se o praticante avançado, o Mestre, o Instrutor, o iniciante e o que nunca treinou nada, ou seja, respeita-se o ser humano. Esse respeito leva, então, a várias possibilidades de aprendizado, porque uma vez que foca-se no auto-aprimoramento, o aprendizado é valorizado independente da fonte. É um caminho de retro-alimentação, que só é possível se o artista marcial tiver a capacidade de olhar para dentro de si, buscando o desenvolvimento pessoal contínuo, e olhar para os outros com respeito, mediando toda essa atividade com humildade.

No final das contas, uma das grandes lições que aprendemos ao longo dos tempos, e que a tradição Oriental faz questão de lembrar, relembrar e propagar é que, independente de você, do seu ego, da sua vaidade, da sua história, “o céu e terra aí [continuarão], como se nada tivesse acontecido...” e que “a vida e as ações de um homem têm o peso de uma folha seca no meio da ventania...”! Se a vida é assim, então porque sofrer por vaidades? É melhor adotar um caminho saudável e agradável (mas não fácil de ser perseguido) do auto-aprimoramento, do que sofrer e deixar se levar por emoções fortes e negativas, para no final ter sido tudo em vão!